Quem me conhece bem sabe que sofro de uma qualquer espécie de hiperactividade que me faz continuamente querer fazer coisas diferentes e estar em todos os lugares ao mesmo tempo (“Margarida, não podes estar quieta um bocadinho, tens que estar sempre a inventar?” é uma frase que oiço recorrentemente).
Como tal e como boa sonhadora que sou, tenho uma lista de coisas quero fazer imperetrivelmente antes de morrer, que inicialmente continha 10 elementos mas que continuamente cresce e se altera ao sabor da maturidade e da sucessiva concretização dos itens que dela constam.
Fazer paraquedismo e ter a ilusão de voar é um dos itens mais antigos dessa lista.
Ontem, deixou de estar em lista de espera.
O motorista anunciou pelo microfone que estávamos naquele que é considerado o 2º melhor lugar do Mundo para fazer paraquedismo (logo atrás do Evereste) e um formigueiro apoderou-se de mim.
Com borboletas na barriga arrisquei um tímido “sim” quando perguntou se alguém estaria interessado em fazê-lo.
Nem 24h depois e lá estava eu, no frio das 6h da manhã, a entrar para um mini (mas mesmo mini) avião vestida com um fato que, não fosse pela côr vermelha, faria com que me confudissem com o Super-Homem na versão feminina.
E que corajosa que eu me sentia, rainha do meu mundo segurando os medos pelas mãos, enquanto os levava comigo para aquela que ía ser uma das experiências mais marcantes da minha vida.
Espantosamente calma, decidi deixar os medos no avião e dirigi-me à minúscula porta obedecendo escrupulosamente às instruções “pernas seguradas com força contra o avião, braços cruzados no peito, ancas para fora, cabeça para trás, em posição de banana”.
O vento era ruidoso e parecía levar-me a cara para longe, à minha frente o branco das nuvens numa visão perfeita do infinito.
Nem um segundo passou e num impulso já não estávamos lá. Estávamos em queda livre a muitos kilómetros por hora e o meu coração, (ainda) espantosamente calmo, absorvia o silêncio e o turbilhão de sensações.
Os olhos, esses, não acompanhavam a razão e perderam-se ao ver ora sol ora terra enquanto a linha do horizonte se assemelhava a uma bússula descontrolada.
Passaram 45 segundos e a pouco e pouco fui recuperando a capacidade de pensar e entreti-me a brincar com a gravidade e a respiração, tentando tomar consciência do meu corpo incontrolado.
Puf…. e aaahhh!
Abriu-se o paraquedas.
o meu companheiro de viagem (não pensavam que eu ía sozinha pois não?!) avisou-me que podia olhar para cima e ver o magnífico paraquedas azul que nos segurava e perguntou-me o que achava do seu escritório.
Ainda sem conseguir falar, respondi-lhe em pensamento “É extraordinário!”.
Uma cadeia montanhosa coberta de neve estendia-se de norte a sul ao longo da costa e por baixo de nós abria-se um planalto verde pintalgado. Mais além, a costa e um oceano azul vivo. Entre os vales, o glaciar Fox (de 39km) parecia tão pequenino que só depois consegui avistar duas formiguinhas que seriam elicópteros pousados no cimo do mesmo.
A pouco e pouco os músculos foram-se relaxando e num estado de intenso nirvana e feliz contemplação aproveitei cada segundo dos eternos 5m que durou a descida.
Penso: não quero que acabe…
O meu anfitrião ouviu os meus pensamentos e mexeu nas cordinhas do paraquedas abrandando a descida e prolongando o meu prazer.
Em círculos largos desenhados no ar fui vendo a terra que se aproximava, já não era cenário surreal e parado, no vazio debaixo dos meus pés, era agora casas e ovelhas e pessoas a rir e a conversar. Acabou-se o nosso silêncio e, numa suavidade que me espantou, senti o chão debaixo do rabo e percebi que estava de volta ao planeta Terra.
Yahuuuuuuuuuu!!!!!!!!!!!! (o meu grito de felicidade assustou as ovelhas que fugiram para longe mas trouxe o Luca de novo para o pé de mim, máquina em punho e feliz por me ver voltar).


Mesmo com o espantoso e delicioso modo como descreves toda a partida, descida e aterragem, não serei nunca capaz de te secundar; com muito orgulho te felicito por dois motivos, por teres sido capaz de o fazer e por teres sabido tão excelentemente fazer-me sentir contigo ao ler o que sentiste e viste.
tem sido uma delícia, mas neste superaste tudo!
Adoro-te, beijos. Continua!
…e que grande fotógrafo levaste na viagem! O Luca está-se mostrando…EXCELENTE. Fotografar uma descida de paraquedas deve ser fácil, para quem sabe fazer fotografia, dirão, mas não, quando o paraquedas leva pendurada aquela que amamos, não é Luca? e resistir ao abraço e apanhar o instante do extase, é de mestre!
Valeu!
As tuas crónicas não só fascinam e informam como ao mesmo tempo entretém. Como os teus pais dizem consegues por-nos a viajar contigo, a sentir a alegria, a surpresa, o exotismo, os cheiros…. Esta viagem merece um final registado em livro. Nós co-financiamos! Aliás já começamos com um simbólico donativo para reduzires a tua lista de espera. Milhões de sonhados beijos para os dois
Como dizer…contigo aprendi que “o sonho é uma constante da vida (…) ” e inspiras-me sempre com essa tua inquietação que te leva ao céu e a todo o lado. Por favor não sossegues, sim?Estou tão orgulhosa da minha irmã supermulher!hehehe! adoro-te
Luca admiro também a tua coragem!
Beijos
Aprovo e aplaudo a ideia dos tios, também já simbolicamente “comprei” alguns km à espera de que sejam de volta…e se não forem, que eu tenha força para ir ao vosso encontro no planeta onde estiverem!
Sim que isto promete…
Beijos terráqueos para os meus saudosos viajantes da New Wonder(zea) land
Sempre em grandes voos
Eu também apoio a ideia para registar essa aventura num livro. Merecem vocês, claro, mas também aqueles que querem ou sonham viajar. Está a tornar-se numa boa fonte de inspiração e pesquisa. Grande abraço para os dois.
És como eu nunca para quieta e sou uma sonhadora.
O meu sonho é conhecer o mundo.
Já pensaste em dar uma volta ao mundo?! Para quem não tem medo de ficar sem sonhos (como tu) é bom poder escolher alguns para realizar e uma viagem dessas é um excelente ponto de partida
– Luca
Uau! Obrigada por me proporcionar a sensação de ter saltado com um paraquedas. Por maravilhoso que tenha achado teu relato, imagino que minha coragem não seja suficiente para um dia chegar a te imitar. Talvez por isso gostei sobretudo do “segurando os meus medos com as mãos”.
Muito obrigada Iracema! Tão bom receber comentários assim… Quanto ao pára-quedas, só custou os primeiros 2 segundos, a sensação da descida foi tão alucinante que a alegria e o extase superaram qualquer medo! Se tiver oportunidade recomendo! um beijinho. margarida