Frangipani Bali

Ritual de oferendas diário

Aterrar em Bali, virgem de qualquer contacto anterior com a Ásia, agita obrigatoriamente o peito e crispa a pele, a qual só ao final de alguns dias parece conseguir respirar…
Uma vegetação imensamente verde e densa invade as estradas, as ruas e os jardins das casas tradicionais, protegidas por muros de basalto recortado em desenhos minuciosos. Atrás deles, nos templos familiares, abrigam-se oferendas e rezas que, em vários momentos de espiritualidade ao longo do dia, vão marcando as horas dos balinenses. Seguindo a religião hindu, os balinenses acreditam que existem onze níveis entre a Terra e Deus, os quais podem ser alcançados gradualmente através da meditação e de reencarnações sucessivas em níveis espirituais mais elevados. Para alcançar o tão desejado 11º nível podem reencarnar infinitamente e, já que o espírito não tem forma nem género feminino ou masculino, nunca se sabe se se vai reencarnar num príncipe ou numa mosca. Por este motivo, a religião ocupa um lugar central na vida dos balinenses os quais procuram fazer o melhor possível e ser o melhor possível para, quando morrerem, reencarnarem em algo bom.
À medida que se demoram os dias que passamos na ilha, vamos percebendo que existem cerimónias religiosas diariamente em quase todos os templos e, mesmo em ocasiões como um casamento, ninguém é convidado directamente mas é esperado que toda a comunidade compareça, trazendo oferendas e envergando os sarongs tradicionais.

De bicicleta perto de Ubud

Aos poucos, avançamos para o interior da ilha onde os terraços de arroz, escondidos atrás das palmeiras, bananeiras e cacaueiros, surgem aos nossos olhos assemelhando-se a um bolo em camadas, multiplicando-se na paisagem e fazendo-nos adivinhar o acompanhamento que vamos encontrar na maioria dos pratos tradicionais.
“Taxi? Taxi? Maybe tomorrow? For how long you stay in Bali?” Caminhando pelas ruas de Ubud, ladeadas de lojas de roupa e bijuteria, vamos sendo abordados pelos taxistas e vendedores ambulantes até chegarmos à Floresta dos Macacos, onde passamos a tarde entre templos de pedra e estes simpáticos animais. De bicicleta, arriscamos um caminho de terra em direcção ao campo e observamos como os camponeses descalços semeiam e colhem de mãos nuas e utilizando técnicas ancestrais. Entre os arrozais, esquilos, patos, borbuletas e, claro, sempre voando nos céus da Bali, papagaios de papel de todas as formas e feitios! (Voam tão alto, como conseguem?).

Novo dia. Desta vez de carro, seguimos até ao topo da ilha onde avistamos o vulcão e o Lago Batur. O silêncio acolhido pelos muros dos templos e a cadência das borboletas que nos acompanham nesta viagem ao interior da ilha contrastam com o caos das motas que circulam por todo o lado, transportando famílias inteiras e qualquer tipo de parafernália para vender nos mercados. No caminho de curvas sucessivas somos parados pela polícia que a troco de algum dinheiro nos deixa prosseguir. “Uma multa? Alguma coisa de errado?”, perguntamos ao nosso motorista. “Está tudo bem”, responde. É uma verdade que se instalou nos últimos anos, os polícias utilizam a estrada como forma de obter dinheiro rapidamente por via da corrupção.
O turismo parece estar a consumir desordenadamente a genuína beleza da ilha, trazendo consigo incoerências na cultura que nos vai sendo apresentada. .
Procuramos a praia para nos refrescarmos e descansar, mas só encontramos sinais da invasão do Homem sobre a terra e o mar: aglomeram-se restos de lixo nos recantos do caminho e ergue-se betão abandonado do que ía ser um resort.
Mas, por baixo do lixo, o mar de Bali esconde um mundo fabuloso de cores vivas e formas inesperadas. Corais verdes,amarelos, azuis, rosa,roxo, peixes riscados de azul turquesa e amarelo, outros negros, grandes e pequenenos, pequeníssimos, afilados ou redondos e raias,moreias, chocos e tartarugas. Tanta vida oxigena-nos o olhar. Finalmente mar limpo e límpido! Debaixo de água conseguimos encontrar algum sossego…

Nota: Em Bali vêm-se as árvores das Frangipani em todos os jardins e templos e suas as flores são usadas para fazer as oferendas para os deuses. Na cultura polinésia moderna, pode ser usada por mulheres para indicar o seu status de relacionamento – sobre a orelha direita, se procura um relacionamento, e sobre a esquerda, se está comprometida.

2 thoughts on “Frangipani Bali

  1. E, mais doque nunca, sinto-me também comprometido com voçês nesta viagem de sonhos…
    Agora, a Joana transporta-nos em mais um destino de indiossincrasias culturais, faunísticas, repleta de cheiros que imaginamos no colorido das flores e ficamos deslumbrados banhados em águas desenhadas em paisagens cromáticas de corais.
    Continua a ser muito bom viajar assim com vocês…bjs sem mais…!

  2. Belo texto, lindo o paralelo feito entre a paisagem e a gastronomia!
    A identidade cultural mostra-se no seu esplendor, mas abafa-nos, misturando na humidade do ar o polen da corrupção que transportámos há séculos, para uma terra virgem onde frutificou e agora nos confrange…

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