Em Hoi An à luz das velas

Arrozal, Hoi An

Hoi An é provavelmente a cidade mais agradavel do Vietnam e também aquela mais completa. Praias paradisíacas, um centro histórico cuidado, bares e restaurantes agradáveis à beira rio,um mercado cheio de vida e até campos de arroz verdes com senhoras de chapéu de palha em bico, não há nada que falte nesta cidade e as oportunidades de fotografia são inúmeras.
Depois de negociarmos o preço da estadia à boa moda vietnamita, saímos de bicicleta pelas ruas de casas amarelas e interiores de madeira antiga. O artesanato local é rico e Hoi An é conhecida por ser a cidade dos alfaiates e sapateiros. Em cada esquina, mais uma loja que se oferece para nos fazer um vestido à medida e sapatos a condizer, ou “talvez um casaco de inverno com um corte original e umas botas coloridas”? Qualquer peça que seja pedida hoje estará pronta amanhã.
É o delírio dos turistas e é ver as madames a entrar e a tirar medidas dos rolinhos à volta da cintura para copiar o modelo do vestido que alguém usou na cerimónia dos Óscares.

Vendedora de fruta, rua de Hoi An

De novo montados nas nossas bicicletas com cestinho, percorremos as ruas enfeitadas pelos candeeiros em forma de balão de tecidos com cores vivas. Junto ao rio, o burburinho aumenta e vendedores ambulantes improvisam restaurantes de rua enquanto no outro lado, num jardim, se dá início ao jogo do Bingo. Na versão vietnamita, o Bingo inclui dois cantores que improvisam versos à desgarrada em volta da carta que saíu e duas “assistentes” que rodam pelo público ostentanto as cartas e entregando bandeirinhas aos vencedores.
Faz-se tarde.
Jantamos num dos muitos restaurantes à luz das velas (peixe em folha de bananeira e fundeau vietnamita) e contemplamos os barcos de pescadores verdes e amarelos que descansam lado a lado preenchendo uma das margens do canal.
É noite e os candeeiros de tecidos coloridos iluminam-se nas ruas. No rio, junto à ponte de madeira que evoca claramente Florença, acendem-se umas iluminações gigantes em forma de animais (um coelho, dois peixes, um gato,…estarão relacionados com o calendário chinês? ).
Assim iluminada, a cidade torna-se incrivelmente romântica e regressamos ao hotel montados nas nossas estilosas bicicletas à anos 60 acompanhados pelo lusco-fusco vermelho e azul das lanternas coloridas.

Good Morning Vietnam!

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criança na rua em Hanoi

Entrar no Vietnam através da cidade de Hanoi é como ser acordado de manhã com trombetas em cima dos ouvidos e um pé colado ao nariz… é qualquer coisa que nos deixa perfeitamente acordados e com todos os sentidos alerta, num travo de mau humor.

O barulho das ruas com milhares de motas a apitar é indiscritível e só abranda ligeiramente entre as 2h e as 4h da manhã. Os passeios estão absolutamente apinhados de motas e de objectos que se extendem para além dos limites das lojas, as quais parecem explodir para a rua a partir dos seus 3m quadrados. No centro histórico de Hanoi, passeámos entre as ruas cheias de comércio e lutámos para não ser engolidos vivos por esta cidade pulsante de vida, enquanto descobríamos como os artesões e os comerciantes se organizam de acordo com a sua especialidade, tal como era antigamente na baixa pombalina (em vez da Rua do Ouro ou da Prata, aqui temos a rua das ferragens, a rua do papel, a rua das sapatarias ou até a rua “dos alimentos mais esquisitos que alguma vez vimos”). Para o almoço, a tradicional sopa de noodles, comida numa mini mesinha em mini cadeirinhas, num passeio na rua, entre os locais. E estava deliciosa!

Vista do passeio no centro da cidade

Quando nos conseguimos recompor de todo o caos lá atinámos a procurar algum espectáculo cultural e aterrámos por sorte no mais famoso teatro de marionetas tradicional (Water Puppets). O espectáculo, que custou apenas 2€, baseia-se na dramatização de cenas do quotidiano rural vietnamita através de marionetas que são movimentadas dentro de água e acompanhadas ao vivo por uma orquestra de música tradicional. Líndíssimo, não fossem as centenas de flashes dos turistas continuamente a disparar mesmo em cima da nossa cara e a estragar o efeito visual da iluminação (oh, como temos saudades de algumas regras europeias que noutras alturas nos pareceram demasiado restritivas…).

Falando de regras, aquilo que mais nos impressionou foi a diferença cultural abismal no que toca às regras sociais de relacionamento. Ao contrário da Tailândia, em que as pessoas respeitam o espaço pessoal mesmo nos transportes públicos conseguindo não se tocar dentro do metro até nas horas de ponta, no Vietnam a noção de espaço pessoal é muito diferente da nossa. Desconhecidos tocam-nos nas pernas, acariciam-nos os braços, empurram-nos nas filas e quase nos passam por cima se não nos desviarmos na estrada (mesmo estando na passadeira e com o sinal verde para os peões). Nos restaurantes, os empregados sentam-se à nossa mesa enquanto esperam pelo troco ou sentam-se ao nosso lado a olhar para nós enquanto comemos para ver se gostamos. Na rua, perguntam-nos o nome, de onde vimos, querem saber quem somos. E depois vão-se embora, se não tinham nada para vender era só curiosidade.

Teatro de marionetas tradicional

Teatro de marionetas tradicional

E foi assim, embebidos neste banho de uma cultura rude e de personalidade forte que descemos costa abaixo até Hue. No Vietnam as distâncias são enormes e a viagem entre as principais cidades pode durar entre 15h e 30h. Desta feita, apanhámos de novo o avião com destino a Da Nang, na costa, e depois o comboio até ao interior.

Como já dissemos em posts anteriores, na Ásia come-se ao pequeno-almoço exactamente o mesmo que ao jantar e por isso às 10h da manhã serviram arroz com carne e ovo estrelado a toda a gente no comboio. Para acompanhar? Sopa de noodles servida num copo de plástico por uma mão com unhas pretas.

A carruagem encheu-se de aromas fortes e o som de dezenas de bocas a comer de boca aberta e a sorver a sopa tornou-se numa imagem memorável. No final da refeição, as mesmas bocas dedicaram-se ao ritual de palitar os dentes (dezenas de chupadelas minuto a minuto) e, qual cereja no topo do bolo, era hora de os fumadores acenderem o cigarrinho (não pensaram que alguém ía respeitar o sinal de “Proibido Fumar”, pois não?).