Christchurch

Christchurch

O resto dos dias que passámos na ilha sul foram invariavelmente cinzentos e chuvosos, não obstante estarmos no pico do Verão (tenho tido tanto que frio que estou a usar o mesmo blusão que usei na Patagónia, se isto é o Verão nem quero imaginar como é o Inverno por estas bandas…).
Antes de chagarmos a Christchurch passámos em pequenas povoações que cresceram em torno da exploração do ouro e que hoje em dia, passados os tempos áureos e deixadas ao abandono, sobrevivivem de algum turismo (paga-se cerca de 7€ para experimentar encontrar ouro nas pedras do rio utilizando a mesma técncica de antigamente).
Ao longo da estrada, a arquitectura mantém-se: casas baixas de madeira, pintadas de beje ou cores pastel e com um jardim em volta ou um pequeno terreno.
Mesmo numa cidade como Christchurch (a maior a seguir a Auckland) toda a santa gente consegue ter o seu pedacinho de terra e apenas dois ou três prédios no centro da cidade oferecem apartamentos como meio alternativo de alojamento.

Antes de partirmos de Lisboa, a Joana, uma amiga comum, tinha-nos posto em contacto com uma amiga dela dos tempos do liceu, a Sofia, que actualmente está a viver em Christichurch. Quando a Sofia chegou para nos vir buscar ao sítio combinado e ainda sem nos conhecer, encontrou dois pintos encharcados, um vermelho e um azul, de mochila às costas e envergando duas piturescas capas para a chuva de plástico transparente compradas num chinês antes da viagem.

Foi nesta triste figura que fomos recebidos em casa dela e do Karl, o seu companheiro, uma vivenda simpática numa zona residencial próxima do centro.
Durante o jantar o Karl, neozelandês, falou-nos de como é importante para os kiwi (neozelandeses) o contacto com o campo e com os desportos ao ar livre. Ele faz parte de uma fratria de seis e, tal como tantas outras famílias neozelandesas, cresceu numa quinta onde aprendeu a tratar dos animais e da horta, tal como o faziam os seus avós quando se mudaram de Inglaterra para a Nova Zelândia. Explicou-nos que nos últimos 15 anos o estilo de vida mudou drasticamente e as pessoas foram deixando as quintas e a agricultura, mudando-se para as cidades. Do ponto de vista económico o país passou a ter o turismo como principal actividade e a comercialização de madeira ocupa agora o segundo lugar, seguida da pastorícia.

No dia seguinte, já secos e repousados, saímos de manhã com o Karl que nos mostrou a baía por onde chegaram os primeiros colonos ingleses (na altura já existia uma pequena colónia francesa na zona) e fundadores de Christchurch e ouve até tempo para molhar o pezinho na praia.
Deixá-mo-lo em casa a trabalhar e rumámos em direção à cidade nas duas bicicletas que nos emprestou, concentrados em seguir pelo lado esquerdo da estrada (tarefa nem sempre fácil).
Christchurch revelou-se a cidade que mais nos conquistou com a sua arquitectura inglesa, atmosfera boémia e maior oferta cultural. A Art Gallery tinha exposições muito boas e o jardim botânico ao entardecer convidava ao passeio e a pôr os pensamentos em dia.

O Karl a preparar o jantar

À noite, já em casa, o Karl e a Sofia organizaram um típico kiwi barbeque e convidaram alguns dos seus amigos para que os pudéssemos conhecer.
Explicaram-nos que, por ter uma história tão recente (os colonos ingleses chegaram há pouco mais de 100 anos) a Nova Zelândia não tem uma gastronomia tradicional e, para além do “fish and chips” inglês e do borrego no forno (que não chegámos a provar), o barbeque é a refeição mais habitual à volta da qual a família e os amigos se juntam, sendo por isso um excelente ritual de socialização.
Tal como o Karl e a Sofia, a totalidade dos seus amigos já tinham feito em alguma altura de sua vida Bungy Jumpy ou paraquedismo e pareceu-nos que os filhos deles também já mostravam essa inclinação pelo desporto-aventura.
No dia seguinte de manhã, deixámos Christchurch com uma pena redobrada pois sabíamos que estava perto o fim da nossa eastadia na Nova Zelândia e que, os próximos dias, eram para regressar a Auckland e apanhar o próximo avião.

Do paraíso tropical até ao Sul glaciar em menos de 3h

Mount John

De Nelson e novamente a bordo do Magic descemos pela costa Oeste até à zona dos glaciares. Entre as montanhas e o mar o autocarro avançou numa estrada estreita costeira que nos deixava deslizar os olhos pelas fantásticas praias selvagens que íamos passando. O mar aqui é forte e tem personalidade e a ausência de presença humana confere-lhe um ar rebelde e despenteado, que nos faz querer ter uma caravana para poder adormecer a ouvir o mar e acordar no dia seguinte com o som das gaivotas e do vento do Sul.

Em algumas zonas avistámos famílias inteiras de focas (ou leões marinhos?) e vimos comos os bebés aprendiam a andar por cima das rochas sem escorregar e emitiam sons para reconhecer o caminho até à mãe.

West Coast

Um macho retorna do mar e a fêmea recebe-o com um roçar de bigodes e narizes, o filhote esconde a cabeça entre as patas da mãe e quase achamos que estamos perante uma família humana, fazendo-nos pensar na nossa presunçosa assumpção de superioridade da raça humana.

De novo a estrada leva-nos para o interior e, entre a cadeia montanhosa que percorre a ilha de Norte a Sul, descobrimos os glaciares Franz Josef e Fox. Sem dinheiro para mais actividades (já tínhamos feito o Ice-trekking na Argentina há pouco tempo) arrisquei a fazer paraquedismo, uma sensação indiscritível que tentei pôr “no papel” há alguns posts atrás.

De cidade em cidade, começámos a sentir o cansaço de actividades organizadas e o nosso cérebro começava a sentir falta de alguma actividade.

Lake Tekaupo

Decidimos, por isso, deixar os nossos amigos (ingleses, australianos, dinamarqueses,…) para trás em Queenstown, uma cidade  turística no Sul da ilha, e ficar umas noites no Lago Tekaupo a usufruir da paisagem e da tranquilidade deste lugar onde, há muitos anos atrás, existiu um glaciar que recuou até às montanhas deixando para trás um vale onde fica hoje o lago.

Bom, na verdade, na versão maori foi um seu ancestral tribal, de nome Raikaihaupo, que chegou com a sua canoa à costa de Nelson e avançou para Sul por uma rota entre as montanhas, escavando o lago Tekaupo com a sua longa pá (assim como muitos outros lagos da ilha Sul).

O Hostel Lake Front Lodge fica mesmo na orla do lago e, enquanto jantávamos o nosso “barbeque” entre novos amigos (o que, por esta altura, já se tornou “uma constante da vida”) assistimos a um fantástico pôr-do-sol por trás das montanhas e do lago e alimentámos pequenos coelhos e ouriços selvagens que corajosamente se aproximavam.

Dica:

No Lake Tekaupo vale a pena subir até ao cimo do Mount John, são cerca de 2h30 mas tem uma vista fantástica sobre o vale e as montanhas em redor. Também vale a pena mergulhar nas águas do lago (apesar de estarem à temperatua gélida de 8ºC), têm uma consistência macia e uma temperatura revigorante e, afinal, não é todos os dias que se pode nadar entre as águas azuis leitosas de um glaciar…

Nova Zelândia tropical

Parque Nacional Abel Tasman

Deixámos a ilha Norte a bordo do ferry Interislander com os nossos amigos malaios (Lyn e Isaac) e após 3h estávamos a entrar no canal de Picton na ilha Sul, um braço de mar rodeado por montanhas que relembra os fiordes na Noruega.

O Magic Bus esperáva-nos do outro lado e no conforto do ar condicionado e da companhia de amigos reencontrados chegámos a Nelson,uma cidade não muito grande que tem um ar pitoresco por ter as ruas enfeitadas com vasos de flores pendurados de ambos os lados.
Como já temos vindo a ser habituados na Nova Zelândia, por ser fim de semana encontrámos todas as lojas e cafezinhos fechados e, em vez da atmosfera boémia de que nos haviam falado, encontrámos uma cidade deserta de gente e de vida.
Para aproveitar o bom tempo, decidimos ficar duas noites e no dia seguinte contratámos um trekking no Parque Nacional Abel Tasman. Um autocarro levou-nos de manhã cedo até à entrada do parque e, daí, embarcámos num barco panorâmico que nos levou a conhecer um dos lugares mais bonitos que encontrámos na Nova Zelândia.
Do lado direito um oceano azul turquesa cristalino convidava-nos a mergulhar e a esquecer a sua temperatura fria. Do lado esquerdo do barco, a costa desenhava-se verde com uma vegetação exótica muito mais parecida com as restantes ilhas do pacífico, com praias de areia fina sem sombra de presença humana.
Após várias paragens em praias desertas ao longo do caminho para deixarturistas carregados de tendas e mochilas, por fim atracámos numa pequena enseada de areia branca entre uma vegetação verde tropical e fomos abandonados ao nosso trekking de 2h entre palmas, pinheiros e silver fern (a famosa planta neo-zelandesa parecida com a palmeira e que é símbolo nacional).
Apesar do Sol quentinho ter dado lugar a uma brisa fresca, quando o barco chegou para nos vir buscar, numa enseada a 1h de distância da primeira, encontrou-nos “esparramados” na areia numa perguiça feliz por estarmos num sítio tão próximo do paraíso imaginado.
Dica:
Para quem tem mais tempo sem dúvida que vale a pena alugar uma tenda e ficar a dormir 1 ou 2 noites no parque nacional (também há algumas opções de alojamento mais caras) já que é impagável a sensação de passear entre praias desertas com ar tropical e ver à noite os pinguins que regressam à costa para dormir ou avistar focas e outros animais marinhos no seu habitat natural.

O dia em que aprendi a voar…sem a ajuda do gato

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A aterragem...

Quem me conhece bem sabe que sofro de uma qualquer espécie de hiperactividade que me faz continuamente querer fazer coisas diferentes e estar em todos os lugares ao mesmo tempo (“Margarida, não podes estar quieta um bocadinho, tens que estar sempre a inventar?” é uma frase que oiço recorrentemente).

Como tal e como boa sonhadora que sou, tenho uma lista de coisas quero fazer imperetrivelmente antes de morrer, que inicialmente continha 10 elementos mas que continuamente cresce e se altera ao sabor da maturidade e da sucessiva concretização dos itens que dela constam.
Fazer paraquedismo e ter a ilusão de voar é um dos itens mais antigos dessa lista.
Ontem, deixou de estar em lista de espera.

O motorista anunciou pelo microfone que estávamos naquele que é considerado o 2º melhor lugar do Mundo para fazer paraquedismo (logo atrás do Evereste) e um formigueiro apoderou-se de mim.
Com borboletas na barriga arrisquei um tímido “sim” quando perguntou se alguém estaria interessado em fazê-lo.
Nem 24h depois e lá estava eu, no frio das 6h da manhã, a entrar para um mini (mas mesmo mini) avião vestida com um fato que, não fosse pela côr vermelha, faria com que me confudissem com o Super-Homem na versão feminina.

E que corajosa que eu me sentia, rainha do meu mundo segurando os medos pelas mãos, enquanto os levava comigo para aquela que ía ser uma das experiências mais marcantes da minha vida.
Espantosamente calma, decidi deixar os medos no avião e dirigi-me à minúscula porta obedecendo escrupulosamente às instruções “pernas seguradas com força contra o avião, braços cruzados no peito, ancas para fora, cabeça para trás, em posição de banana”.
O vento era ruidoso e parecía levar-me a cara para longe, à minha frente o branco das nuvens numa visão perfeita do infinito.
Nem um segundo passou e num impulso já não estávamos lá. Estávamos em queda livre a muitos kilómetros por hora e o meu coração, (ainda) espantosamente calmo, absorvia o silêncio e o turbilhão de sensações.
Os olhos, esses, não acompanhavam a razão e perderam-se ao ver ora sol ora terra enquanto a linha do horizonte se assemelhava a uma bússula descontrolada.
Passaram 45 segundos e a pouco e pouco fui recuperando a capacidade de pensar e entreti-me a brincar com a gravidade e a respiração, tentando tomar consciência do meu corpo incontrolado.
Puf…. e aaahhh!
Abriu-se o paraquedas.
o meu companheiro de viagem (não pensavam que eu ía sozinha pois não?!) avisou-me que podia olhar para cima e ver o magnífico paraquedas azul que nos segurava e perguntou-me o que achava do seu escritório.
Ainda sem conseguir falar, respondi-lhe em pensamento “É extraordinário!”.
Uma cadeia montanhosa coberta de neve estendia-se de norte a sul ao longo da costa e por baixo de nós abria-se um planalto verde pintalgado. Mais além, a costa e um oceano azul vivo. Entre os vales, o glaciar Fox (de 39km) parecia tão pequenino que só depois consegui avistar duas formiguinhas que seriam elicópteros pousados no cimo do mesmo.
A pouco e pouco os músculos foram-se relaxando e num estado de intenso nirvana e feliz contemplação aproveitei cada segundo dos eternos 5m que durou a descida.
Penso: não quero que acabe…
O meu anfitrião ouviu os meus pensamentos e mexeu nas cordinhas do paraquedas abrandando a descida e prolongando o meu prazer.
Em círculos largos desenhados no ar fui vendo a terra que se aproximava, já não era cenário surreal e parado, no vazio debaixo dos meus pés, era agora casas e ovelhas e pessoas a rir e a conversar. Acabou-se o nosso silêncio e, numa suavidade que me espantou, senti o chão debaixo do rabo e percebi que estava de volta ao planeta Terra.
Yahuuuuuuuuuu!!!!!!!!!!!! (o meu grito de felicidade assustou as ovelhas que fugiram para longe mas trouxe o Luca de novo para o pé de mim, máquina em punho e feliz por me ver voltar).

Nova (Disney)lândia ou Nova Zelândia?

Wai-O-Tapu

Depois de termos passado a primeira semana a descobrir Auckland e a zona norte, procurámos informação nos turismo para saber qual a forma mais económica de viajar e quais os sítios de maior interesse.

Regressámos ao apartamento com quatro quilos de panfletos (a informação é definitivamente excessiva), todos eles oferecendo fantásticos preços de excursões organizadas, mas sem pistas que nos ajudassem a escolher um percurso ou a saber por onde iniciar.
Deixámos os quilos de panfletos de lado (demorámos horas a tentar lê-los e tentar filtrar a informação que pudesse ser de facto útil) e acabámos por escolher a opção mais barata e popular – um circuito de autocarro pelas duas ilhas que permite sair em qualquer uma das cidades do percurso e voltar a entrar noutro dia qualquer (existem várias companhias muito parecidas, nós fomos com a Magic porque tinha 60% de desconto).
Primeira viagem: destino a Rotorua.
Da janela do autocarro, a vista perde-se na paisagem ondulante de infinitas colinas cobertas de prado e temos a sensação que toda a ilha é coberta por uma gigantesca carpete verde polvilhada de açúcar (existem 9 ovelhas por cada habitante na ilha, estão a imaginar o cenário?).
Apesar da monotonia da paisagem, a ilha Norte tem uma intensa actividade vulcânica (a Nova Zelândia está situada no ponto de encontro entre placas tectónicas) o que a brinda com fenómenos extraordinários como lagos e fontes de água quente, geisers, piscinas de lama a ferver e, claro, o fantástico parque geotermal Wai-O-Tapu.
Saíndo de Rotorua em direcção a Taupo o Wai-O-Tapu é uma paragem obrigatória e, apesar do mar de gente, é difícil ficar indiferente à lagoa amarelo fluorescente ou ao lago fumegante com cores arco-íris que fazem lembrar uma pelete de um pintor(avisam-nos que a temperatura da água é perto dos 100ºC e por isso não é grande ideia ir lá molhar o pezinho).
Pouco depois, em Waitomo, o passeio faz-se por grutas de minhocas fluorescentes (Glowworms), um insecto que vive na escuridão entre estalactites e estalagmites e que no seu estado larvar se torna fluorescente, criando um efeito visual que faz lembrar o céu estrelado.

panfletos dados no turismo...

Mais abaixo na ilha, o Parque Nacional Tongariro mostrou-se sempre cinzento e chuvoso o que nos impediu de fazer o treking Tongariro Alpine no vulcão (Mount Dumm) que foi usado para filmar “O Senhor dos anéis”. Ainda assim, soube bem parar um dia para descansar e reorganizar o sono e as contas.
Mais uma viagem mais uma voltinha e heis-nos de novo na estrada, rumo a Wellington, para apanhar o ferry que nos levaria à ilha sul.
Após duas semanas em viagem, começamos a perceber porque é que o turismo é a principal fonte de economia na Nova Zelândia – o país é apresentado ao turista como um gigantesco parque de diversões e o maior ou menor interesse de um lugar é medido pelo número de desportos ou actividades turisticas que consegue oferecer. As cidades são todas bastante recentes (têm cerca de 100 anos ou menos) e são de pequenas dimensões, pelo que os “momumentos” oferecidos variam entre uma cenoura de plástico gigante, uma casa de banho desenhada por um arquitecto ou uma ponte “histórica” com 100 anos.
Dicas:
. o Magic Bus, apesar de ter sido a opção mais barata e permitir conhecer pessoas do mundo inteiro, acaba por ser uma espécie de “toca e foge” em cada lugar, no fundo consiste apenas em ver o país através de uma janela de autocarro. A próxima vez que viermos sem dúvida vamos alugar um carro para poder explorar o país à nossa vontade.
. Para quem pretende ver as Glowworms nas grutas de Waitomo a melhor opção é aquela que inclui o passeio de barco ou o tubbing porque, apesar de mais caras, oferecem um passeio bem mais bonito e com muito mais efeito cénico.
. Para visitar o parque Wai-O-Tapu a pior hora é às 11h, quando toda a gente sai do espectáculo diário do geyser Ladi Knox (que é ridículo porque completamente artificial, para activá-lo deitam uma barra de sabão para dentro do orifício e a água começa a sair com espuma como se fosse uma máquina de lavar roupa).