
Durante a nossa estadia na Malásia descobrimos uma cantora de jazz que não podíamos deixar de partilhar – Rachel Guerzo. Ouvimos a música dela a tocar num bar e como gostámos muito perguntámos de quem era. Ficámos a saber que a Rachel foi a primeira cantora de jazz malaio a gravar um CD e como foi uma edição muito pequena ainda não está a ser comercializado na Europa. Mas num incrível golpe de coincidência no dia seguinte conhecemos a irmã dela e conseguimos comprar-lhe um CD. As músicas foram seleccionadas para agradarem a um público geral e foram deixadas de fora as faixas de jazz mais hard-core (tipo orquestra a cair pelas escadas a baixo, como um amigo uma vez tão bem descreveu). No CD “Just Friends” as músicas sucedem-se numa melodia lenta mas a voz forte e doce da Rachel seduz-nos como um travo de Bayleys quente e sedutor.
Aqui fica a dica e teremos muito gosto em partilhar (temos autorização da irmã dela).
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Uma ida ao curandeiro…
Passadas duas semanas do meu atropelamento e ainda cheia de dores no pé, resolvemos que era altura de consultar um médico. A Ling explicou-nos que na Malásia tínhamos três hipóteses: consultar um médico normal, recorrer à medicina chinesa ou ir a um médium curandeiro. A contragosto, lá acedeu ao nosso pedido e levou-nos a uma clínica médica (no hospital a lista de espera era grande…) e a radiografia comprovou que o pé não estava partido, restando-me apenas a hipótese de “repousar o pé”, nas palavras do médico.
Não contente com esta solução (parada eu? durante as férias?!) a Ling decidiu que “os nossos” médicos não eram grande coisa e que se eu queria ver o pé melhorar tinha mesmo que consultar um médium curandeiro.
Prego a fundo no carro e ainda nessa tarde estávamos a entrar num templo taoísta onde um senhor careca nos recebeu. O Deus que ele encarnou lá lhe disse o tratamento que eu precisava e fomos embora todos contentes com um saco de ervas, uma garrafa de álcool e uma ligadura, com a recomendação de fazer uma papa com aquela mistura e aplicar 3 dias seguidos para espantar os maus espíritos.
O aspecto da coisa era muito duvidoso e o cheiro demasiado intenso, mas não é que fiquei mesmo boa em dois dias?!
(O que eu não disse a ninguém é que estive ao mesmo tempo a pôr gelo e a tomar anti-inflamatórios…)
Os deuses devem estar loucos! – Uma semana com uma familia malaia Parte II
Manhã do segundo dia.
O dia começa com um duche de água fria, servido a conta gotas com a ajuda de um alguidar. Estão 35ºC com cerca de 70% de humidade e este é apenas o primeiro dos três ou quatro duches que fazemos diariamente para enfrentar o calor. Para o pequeno-almoço, a Ling leva-nos ao seu sítio habitual. Um conjunto de 4 barraquinhas em frente ao mercado, cada uma com a sua especialidade. Pede para nós ovo cru com molho de soja, um roti com piri-piri, nasi goreng (prato de arroz cozido em leite de coco com peixinhos fritos, piri-piri e pepino) e um chá com espuma delicioso. A tia da Ling junta-se a nós com um dos filhos e ficamos a saber que durante os próximos dias vai haver uma grande celebração no Templo Taoista, por ocasião do aniversário de um dos deuses. Somos convidados a assistir. Como não trouxemos connosco roupa mais elegante limitamo-nos a vestir-nos de forma modesta, eu com especial cuidado para ter os ombros e os joelhos cobertos.
São 11h e chegamos a um templo com decorações de animais míticos pintados de vermelho e amarelo e o típico telhado ondulado. Em frente ao templo abre-se um espaço amplo, coberto por um toldo de chapa e debaixo dele pessoas azafamadas finalizam os preparativos. Invade-nos um cheiro intenso a insenço. O almoço é servido gratuitamente à comunidade, resultado das oferendas feitas pelas várias famílias. Enquanto comemos, a Ling explica-nos que todos os pratos são vegetarianos porque o vetegarianismo purifica e aproxima-nos dos deuses. Alguns curiosos juntam-se à volta da nossa mesa querendo saber quem somos e de que países vimos. A comunidade está muito contente por ter ali dois “falang” e para além dos sorrisos que nos fazem todos nos querem dar coisas a provar e tentam certificar-se se a Ling nos está a receber bem. No palco ao nosso lado inicia um espectáculo de marionetas chinesas tradicionais, mas ninguém está a assistir pois este espectáculo não é para as pessoas, é para entreter os deuses, explicam-nos. Com o início da tarde aumenta o borburinho e o rufar dos tambores torna-se mais forte. Juntam-se outros instrumentos e a multidão começa a aglumerar-se dentro do grande templo debaixo de uma nuvem de fumo de insenço.
A cerimónia está prestes a começar. Lá fora, cresceram as mesas vestidas de toalhas cor de rosa e vermelhas cobertas de oferendas. Cestos a perder de vista recheados de fruta, pão, bolos, peixe, rebuçados. Com execpção do peixe e da fruta, tudo é tingido ou pintado de vermelho, a cor da boa fortuna (na verdade o tom final assemelha-se ao rosa choque!). Há até quem tenha trazido um leitão assado no espeto, para grande descontentamento de alguns que se lamentam de não ser respeitada a tradição vegetariana. Um dos organizadores do evento dirige-se a nós indicando-nos os melhores lugares e com orgulho do que está prestes a mostrar-nos, incentiva-me a tirar fotografias e a filmar. Posiciono-me no lugar que me indicou, por trás do altar principal, de frente para o público.A música é agora ensurdecedora e, entre tantos estímulos musicais e visuais, só passado alguns segundos é que reparo no personagem ao meu lado sobre o qual se centram todas as atenções – tem o tronco nú e umas calças amarelo vivo e movimenta-se estranhamente e com os olhos fechados. No instante em que começo a filmar vejo que está a espumar da boca e começa a ter convulsões. A multidão está tranquila e só nós parecemos assustados pelos movimentos balanceantes descontrolados que este homem continua a fazer enquanto dois ajudantes lhe enxugam o suor e tentam assegurar que não caia para o chão. Dizem-nos que foi neste momento que ele foi possuído por um dos deuses e logo a seguir a ele aconteceu o mesmo aos outros três médiuns vestidos da mesma forma. A multidão de espectadores foi aumentando acompanhada pelos tambores acelarados e sinto o ar a ficar cada vez mais pesado. Tenho os olhos e o nariz a arder por causa do insenço. Ao meu lado admiro absorta estes quatro “deuses” e pergunto-me quem se lembrou de inventar deuses tão parecidos com personagens saídas de um hospital psiquiátrico (todos continuam de olhos fechados, abanam a cabeça descontroladamente, têm espasmos, espumam da boca, pôem-se de pé em cima das cadeiras em poses estranhas e murmuram coisas incompreensíveis). Para aproveitar a presença dos deuses começam a chegar, de várias mãos, maços de papel amarelo simbolizando notas de dinheiro para serem benzidas e carimbadas com o selo vermelho de cada um dos digníssimos.
Mais música, mais fumo de insenço. Os quatro deuses juntam-se numa roda a dançar, cada um com uma bandeira na mão cujo significado não conseguimos perceber e, aos poucos, vão-se dirigindo ao altar que foi estratégicamente colocado no exterior com todas as oferendas em seu redor. É o momento da oração. Eu, assumo o meu papel de camera-man e saio lá para fora posicionando-me de frente para o templo. O Luca, é misturado com os restantes súbditos e vê-se ajoelhado atrás dos deuses entre um mar de gente que agora ocupou o interior do templo principal. É altura de orar ao Deus de todos os deuses e pedir que aceite as humildes oferendas e conceda a sua benção àqueles ali presentes. Percebemos mais tarde que cada oferenda tem um significado diferente, quem coloca alimentos pede fartura para a sua família, quem coloca flores pede para ser bem visto (oferenda típica de quem procura marido, por exemplo), quem oferece dinheiro pede fortuna. O lema parece ser “dá aquilo que gostavas de receber”. Acaba a oração e, um após outro, os médiuns desmaiam e deus abandona-lhes o corpo, deixando-os de novo comuns mortais, como nós.
É altura da festa! A comida, agora abençoada, é distribuida pela mão de um dos padres que a vai lançando ao ar enquanto as pessoas correm para a apanhar entre risos e empurrões, afastando-se depois para jantar. Um dos nossos amigos médiuns oferece-se para nos ler a sina e ficamos a saber que nunca vamos ser ricos, que o nosso emprego nos vai manter separados por muito tempo e que nos vai ser difícil ter filhos. Obrigadinha amigo!
É tarde. O recinto agora encheu-se de gente e regressam os deuses encarnados nos quatro médiuns. À frente do grande altar no exterior, a música aumenta e é disposto um banco coberto por um lençol vermelho que simboliza a ponte entre o ano velho e o novo ano que está a iniciar. Um a um, vão sendo enumerados os signos do zodíaco chines e inicia-se uma procissão para passar a “ponte”. Anúnciam o signo galo e os nossos amigos indicam-me que é a minha vez. Sou a quinta na fila e, como não tenho ideia do que tenho que fazer, limito-me a imitar os que estão à minha frente, embora esteja meio hipnotizada pela música que continua a tocar de forma ensurdecedora e ininterruptamente. Devagar avanço pelo banco passando pelos quatro deuses e deixo que me carimbem na nuca uns caracteres chineses de côr vermelho acre. Recebo o último carimbo já depois de pisar de novo o chão e saio por baixo da bandeira que seguram os ajudantes, embranhando-me de novo na multidão. Agora estou protegida para o resto do ano, assegura-me a tia da Ling e, antes de irmos embora, oferece-nos uma espécie de cracker gigante coberta com caramelo que só se come neste dia.Uma semana com uma família malaia
A Ling pertence a uma família de origem chinesa, tal como um terço da população da Malásia. A restante população divide-se essencialmente entre dois grandes grupos, os malaios (originários da Indonésia e de religião muçulmana) e os indianos (de religião hindu). O quarto grupo é constituído pelos indígenas originários da península mas que actualmente apenas constituem uma minoria da população.
Cada um destes grupos tem uma cultura própria extremamente forte, uma religião e língua diferentes e ocupam posições muito distintas dentro da sociedade malaia. Aquando da nossa chegada ao país apercebemo-nos de uma campanha lançada pelo governo que tenta apelar à união nacional (“One Malasya”) e por isso quisemos saber qual a opinião da Ling sobre este assunto.
- “É um desperdício de dinheiro” – afirmou peremptoriamente.
Segundo a visão que nos deu a conhecer, a sociedade malaia não só é extremamente dividida como claramente estratificada, em que todos sabem quem detém o estatuto mais elevado (os malaios muçulmanos), e quem são os cidadãos de segunda (os chineses) e de terceira categoria (os indianos). Os indígenas ocupam o lugar mais baixo nesta pirâmide social e são geralmente muito pobres.
Esta divisão é visível logo desde crianças já que cada grupo étnico frequenta uma escola primária separada (cada uma em sua língua) e apenas têm possibilidade de se encontrar nas escolas secundárias públicas (ainda assim existem muitas famílias que optam pelas escolas secundárias privadas, as quais seguem a divisão anterior).
A Ling explicou-nos ainda que, apesar de pertencer já à 4ª geração que nasceu neste país (todos com nacionalidade malaia e com BI malaio), para efeitos legais é considerada “malaia chinesa” e portanto não beneficia dos mesmos direitos que os seus concidadãos malaios. Entre outras regalias, os malaios beneficiam de desconto de 2% na aquisição de uma habitação, beneficiam de uma redução significativa nas taxas de juro quando pedem empréstimos ao banco, são priorizados nos atendimentos nos centro de saúde, na entrada para a universidade ou na atribuição de bolsas de estudo.
Para além disso, as empresas e os partidos políticos têm que ter obrigatoriamente pelo menos 30% de malaios (novamente aqui não interessa ser cidadão malaio mas sim de etnia malaia) e por isso passam à frente dos seus compatriotas ainda que estes sejam melhores qualificados para o lugar.
Apesar de ter amigos malaios e indianos do seu tempo de estudante secundária, percebemos no discurso da Ling que a percepção de desigualdade e injustiça social separa claramente os diferentes grupos étnicos e é uma base fértil para a criação de fortes tensões sociais.
- “Chegámos!”
O carro pára em frente a uma casa de dois andares com um grande pátio, num bairro residencial de casas todas iguais. Depois de nos instalarmos, a Ling levou-nos a conhecer a quinta de um dos seus tios onde provámos uma série de frutos que ainda não conhecíamos e conversámos sobre o facto de os frutos não serem tão abundantes na Malasia em comparação com outros países asiáticos, apesar das excelentes condições climatéricas para a sua produção. A produção de óleo de palma é actualmente a principal actividade económica do país e o tio da Ling, tal como a maioria dos agricultores da Malásia, perceberam rapidamente que esta é uma fonte de riqueza fácil e substituiram as quintas tradicionais por extensas plantações de palmeiras que alteraram de forma decisiva a paisagem do país.
Com o final do dia a aproximar-se a Ling levou-nos a uma tasquinha à beira-mar onde geralmente vem com o seu grupo de amigos ou familiares petiscar ameijoas (cozinhadas com um molho de tomate, chili e especiarias) de fazer lamber os dedos, tipicamente acompanhadas por um chá frio com uma rodela de limão, enquanto assistimos ao por do sol.
Encontrámos a ilha do Robinson Crusoe!
Chegados num barco, fomos vendo as ilhas irem ganhando tamanho e o verde ficando cada vez mais vivo, até desenbarcámos numa praia paradisíaca. Terá sido esta a sensação que o Robinson Crusoe teve quando chegou à costa da sua ilha? O coração pouco a pouco abranda o ritmo até nos deixar num estado de intensa descontração e relaxamento. Aqui, o mundo ganha outras cores. Tudo parece mais bonito e brilhante, até o nosso bungalow simples de madeira e tecto de palha nos parece extremamente acolhedor, emoldurado pela paisagem de coqueiros e pelo céu azul vivo.
Pulau Besar é uma ilha pequena e a única forma de circularmos nela é de barco ou a pé, por um único caminho aberto entre a vegetação, que vai rodeando a ilha junto à costa. Quando caminhamos cerca de 10m chegamos a uma segunda enseada onde mora o Ibrahim, num resort entretanto abandonado. Disseram-nos que é aqui que se encontra a zona de corais e por isso mergulhamos nas águas quentes de um azul turquesa licoroso, óculos de mergulho e respirador postos.Fora da água, saímos desta praia deserta e aventuramo-nos para dentro do bosque por um caminho estreito entre a vegetação húmida. Uma grande aranha preta, amarela e laranja construiu uma teia no meio do caminho e, para além dos insectos, prendeu-nos também a nós que ali ficámos perdidos a tirar fotografias. Mais à frente, borbuletas de inúmeras cores vão passando e distraindo o nosso olhar. É altura de voltar para trás…
Depois de um duche rápido vestimos roupa comprida para cobrir o corpo dos mosquitos e saímos para jantar. Hoje prepararam-nos um BBQ buffet que é servido na praia, logo a seguir ao por do sol. Em silêncio, na nossa mesa, a poucos metros do mar e à luz das velas, rendemo-nos ao romantismo do lugar.
Dia 2
Acordamos com os pássaros e os galos que anunciam a chegada da manhã e sentimos o bafo quente e húmido ao abrir a porta para a rua. À nossa frente, um amplo espaço verde com coqueiros carregados relembra-nos onde estamos e somos invadidos por uma invulgar boa disposição.
Este, como os dias seguintes, foi passado a perguiçar na areia branca daquela praia só para nós e a ler no espaço lounge onde a música parece ser tirada do nosso mp3. O staff tem uma postura simples e relaxada mas fazem-nos acreditar que estamos mesmo no paraíso quando delicadamente nos oferecem um cocktail com vista para o mar ou nos surpreendem com uma mesa posta num canto recatado à luz das velas e pôem aquela música que uns dias antes repararam que gostámos.
Não estamos habituados a ser tão bem tratados e rapidamente fazemos amizade com o grupo de rapazes que aqui trabalha. O Dave (abreviatura de um nome demasiado extenso e difícil de pronunciar) explica-nos que é de Malaka mas que adora este trabalho e é aqui que se sente em casa sua. A sua pele é muito escura, tem traços indianos e confidencia-nos que o seu nome é católico e significa “o deus de todos os deuses”. Todos os outros seus colegas são muçulmanos, o grupo religioso maioritário na Malásia.
Conhecemo-los pelas alcunhas. O Malibu e o Boion acabam por ser aqueles com quem passámos mais tempo e quase todas as noites somos desafiados por eles para uma partida de snooker.O Malibu é um dos mais jovens e tem um ar franzino e pele escura. Por baixo do nariz achatado exibe um sorriso de dentes cuidadosamente alinhados e de um branco à Holliwood. já o seu pai trabalhava neste resort, como Chef. Entre gargalhadas, noite após noite, vão-nos ensinando um pouco de Malaio e de Chinês. Vivem todos aqui, são como uma família e trabalham 7 dias por semana, o que, segundo dizem, não é um fardo mas sim um prazer.
Para além deles e dos outros trabalhadores das 4 pousadas que existem na ilha, apenas existem 5 famílias residentes. Hoje em dia já não vivem da agricultura, vivem das rendas pagas pela ocupação das suas propriedades. Já foram mais. Eram muito mais, mas aos poucos foram saindo da ilha em busca de melhores oportunidades. Ficaram os macacos, as vacas e os poucos turistas que, como nós, têm a sorte de descobrir por acaso este paraíso perdido.
Dicionário rápido de Malaio
Obrigada – terima kasih
De nada – Sama sama
Sim – Ya
Não – Tidak/tak
Fixe! – Bagus
Nada bom – Tidak bagus
Óptimo, muito bom – sangat baguss
Por favor – tolong
Amo-te- ku cinta mu
1,2,3,4,5 – satu, dua, tiga, empat, lima
Dicas
Este paraíso é acessível até àqueles com um budget mais apertado, os bungalows para 2pessoas com ar condicionado custam apenas 38€ por noite e a ilha fica a poucas horas de autocarro (depois um barco vai-nos buscar ao porto e leva-nos até à ilha) de Singapura, um dos destinos mais baratos para se chegar de avião à Asia (saídas da Europa a partir de 400€ ida e volta com a Air Asia).
Contacto: Mirage Island Resort – Pulau Besar, Mersing, Malásia (Tel:0197776355, mail: mirageislandresort@gmail.com)
Ps – Pede-se o favor de não divulgar!









