Luang Prabang, a “cidade resort”

Por do sol no Rio Mekong

Quando se chega ao centro de Luang Prabang damos por nós a perguntar “mas, estou mesmo no Laos?”.
Vivendas com jardins e bonitas varandas de estilo colonial, boutiques, galerias de arte e pastelarias à altura de Paris transportam-nos para um outro mundo e um outro tempo, e fazem-nos esquecer onde estamos.
De facto, é ainda muito presente a influência francesa (não nos esqueçamos que o Laos só se tornou independente da França em 1954) e o centro da cidade foi proclamado Património Mundial da Humanidade e, como tal, tem-se mantido sensivelmente inalterado. Ainda assim, um olhar mais aprofundado revela que as vivendas são, invariavelmente, guest houses e nas pastelarias e restaurantes chiques não se vê um só laosiano, excepto aqueles que nos vêm servir às mesas.

O centro da cidade mais não é que um gueto de turistas de meia idade que vêm de avião e passeiam pelas ruas romanticas da cidade de baguete na mão.
Também aqui nos vimos em dificuldade para conhecer o Laos e as suas gentes.
Adormecida entre as curvas do Rio Mekong, Luang Prabang oferece vistas lindíssimas enaltecidas pelo nascer e por do sol que avermelham as palmeiras e tornam o calor mais suportável.
À noite, as ruas enchem-se de comerciantes que vêm vender artesanato aos turistas (mais uma vez, os laosianos só se vêm do lado de lá do balcão) e sentimo-nos numa espécie de “cidade resort”.

Sentados num dos cafés chiques a degustar uma fatia de “lemon pie”, avistamos lá fora na rua um casal amigo que passeia.
Encontrámos assim, por mero acaso e conjunção de várias coincidências, a Iris e o Sabão.
Eles de partida para Vang Vieng, nós de partida para o Vietnam.
Jantámos juntos no mercado nocturno (francamente de inferior qualidade em comparação com os vizinhos tailandeses) e fomos festejar o encontro com milkshakes de manga na mão numa esplanda debruçada sobre o Mekong.
Afinal o mundo é bem mais pequeno do que pensamos…

A versão laosiana de Palma de Maiorca e a vergonha de ser turista

Vista de Vang Vieng

Saímos de Vientiane no autocarro público em direcção a Vang Vieng.
Somos os únicos ocidentais e parecemos também os únicos surpreendidos com as cortinas de cores garridas com rendas do snoopy e com o som extridente da televisão que passa continuamente músicas folclóricas em jeito de karaoke.
Impossível dormir nas 4h que se seguiram dado o excessivo volume do aparelho.
E ainda bem, porque assim conseguimos apercebermo-nos da paisagem e dos sítios por onde fomos passando.
Apesar da distância entre as duas cidades ser de apenas 150km, a estrada estreita e cheia de curvas, com grandes partes do trajecto não asfaltadas, faz com que a viagem seja demorada.
No caminho passamos pequenas aldeias, as casas são de palha e madeira, quase todas constituidas sobre palafitas e, na zona ampla que se abre debaixo das casas, é comum ver-se senhoras a tecer em teares artesanais as saias compridas de seda que ainda hoje são a vestimenta habitual das mulheres Laosianas.
Tal como se vê na Tailândia e no Cambodja, a mesma zona de sombra sob as casas serve como lugar preferencial de convívio, geralmente em torno de um estrado de madeira elevado onde se sentam descalços a descansar, a conversar ou para fazer as refeições.

Vang Vieng tem uma paisagem natural linda, uma espécie Ha Long Bay mas em terra – complexos rochosos em forma de ilhas semeadas entre os campos de arroz, cobertos de vegetação verde e circundados por um rio.

Turista ocidental em Vang Vieng (ou acidental?)

A cidade, no entanto, não nos impressionou tanto.
As pessoas têm um ar triste (como, de resto, nos pareceu também nas outras cidades que visitámos no Laos), não as vemos sorrir e olham-nos com um ar sério e profundo. Mas bastou-nos observar durante um tempo a dinâmica da cidade para perceber porquê.
Vang Vieng é o destino preferido de ocidentais (sobretudo ingleses e americanos) em viagem de finalistas. Vêm aqui para se divertir e desdenham da cultura local. Embebedam-se de manhã, fazem tubbing no rio, exigem hamburguer e batatas fritas nos restaurantes. À tarde, demoram-se nos bares em frente à televisão e bebem cocktails happy (com droga incorporada, de fácil acesso em todos os bares da cidade) que os ajuda a prolongar a noite.
Vemo-los gritar pelas ruas, cantar, passear-se em bikini e mini-saias (indiferentes aos costumes locais já que tanto as mulheres como os homens andam de pernas e braços cobertos), estoiram o dinheiro que trouxeram e nada apreendem sobre o sítio onde estão.
São eles que fazem com que a cidade se tenha transformado em pouco tempo num gueto de bares e guesthouses para turistas e que seja virtualmente impossível ter algum contacto genuíno com a cultura local.
Em conversa com o dono de um restaurante familiar ele explica-nos no seu inglês aprendido fora da escola – “os turistas vêm para aqui, só se querem embebedar, fazem estragos, perdem as boias (de fazer tubbing) e nem se apercebem do perjuízo que isso significa para nós”.
Ficamos com vergonha de ser turistas e de sermos identificados com aquela gente com quem nada partilhamos a não ser o facto de sermos ocidentais.
Depois de uma incursão falhada de bicicleta pelos campos de arroz (o pneu rompeu-se após o primeiro kilómetro) deixamos Vang Vieng e partimos em direcção ao norte.

Vista de Vang Vieng

À descoberta do Laos. Primeira paragem: Vientiane

À saída de uma escola em Vientiane

Hoje, o Laos. Enquanto olho pela janela do autocarro pergunto-me o que sei eu sobre este país em que estou prestes a entrar.
Como é a sua gente? Como é a sua cultura? Qual é a sua história?
Ergo as sobrancelhas e enruga-se-me a testa enquanto me esforço por encontrar na minha memória qualquer vestígio de informação sobre o Laos.
Nada.
Um vazio.
Não tenho absolutamente nenhuma ideia clara sobre o que vou encontrar.
Imagino um país pobre, imagino um solo seco e pouco fértil e antecipo os problemas de higiene que vamos encontrar. Depois, penso de novo, e relembro uns pedacinhos de informação que nos deram uns amigos que já visitaram este país. Reformulo a minha percepção, imagino agora um país iluminado por lanternas de papel e uma massa de pessoas pequenina de olhos rasgados que se juntam nas margens do rio para acender as velas e lançar as lanternas em direcção ao céu.
Dentro desta minha nova concepção, imagino agora encontrar um país que concentra em si todos os clichés asiáticos: monges budistas, arrozais verdes a perder de vista, magnólias, pessoas vestidas com os fatos tradicionais, lanternas de papel e comida exótica.
E heis-nos chegados à fronteira.

A maioria dos turistas backpackers como nós entra no Laos a partir da Tailândia, fazendo o percurso de dois dias em barco ao longo do Rio Mekong para chegar a Luang Prabang.
Nós, como vínhamos de Khon Kaen, na Tailândia, acabámos por entrar por Viantiene e fazer o percurso inverso, até Luang Prabang e esperávamos depois seguir de barco rio acima, para conhecer aldeias mais pequenas e menos visitadas nas montanhas no Norte do país.
Em Viantiene encontrámos um cidade deprimida, triste, com um ar semi abandonado, que em nada fazia crer ser a capital de um país. Ao contrário da Tailândia, nas ruas não encontrávamos as milhares de barraquinhas a que estávamos habituados e tivemos dificuldade em encontrar um sítio onde vendessem comida tradicional. No pequeno centro, lojas e restaurantes bem decorados faziam crer que se estivesse num qualquer país ocidental, num contraste demasiado nítido com o meio envolvente, pobre e descuidado.

Buddha Park

No segundo dia, seguimos o conselho de um grupo de jovens que encontrámos e apanhámos o autocarro nº14 que nos levava um pouco fora da cidade, até ao “Budha Park”, um parque de esculturas criado por um monge hindo-budista que queria espalhar a sua filosofia. Durante a viagem, os brownies e os capuccinos que se vendiam no centro deram lugar à carne seca ao sol e à banana assada. As estradas não asfaltadas súbito à saída da cidade recordaram-nos que estávamos num dos países mais pobres do mundo e o pó que se levantava à nossa passagem acrescentava-se às casas e às árvores tingidas daquele laranja terroso forte.
Encontrámos o parque quase vazio de turistas mas, em compensação, cheio de estátuas surrealistas parecidas saídas de um filme de Dali. Deuses de 4 cabeças, deusas de 8 braços, animais-humanos de todas as formas e feitios.
À entrada, o olhar prende-se numa gigantesca figura redonda com uma boca saliente que convida a que sejamos “engolidos”. Abaixamo-nos e enfiamos a cabeça e o corpo entre os dentes para descobrir uma passagem secreta entre a parede interna e a parede externa. Já no interior, pequenas janelas iluminam uma câmara interna que se extende por três níveis, completamente repleta de estátuas e estatuetas minuciosamente cobertas por teias de aranha, num estilo de “casa do terror”. Continuamos até ao cimo subindo os estreitíssimos e altos degraus que separam cada um dos níveis e literalmente enfiamo-nos por um orifício quadrado que nos leva ao topo daquela casa-escultura. Equilibrados no alto desta abóboda-testa conseguimos avistar todo o parque e um budha gigante deitado de novo atrai o olhar e indicando-nos qual a direcção a seguir.