
À saída de uma escola em Vientiane
Hoje, o Laos. Enquanto olho pela janela do autocarro pergunto-me o que sei eu sobre este país em que estou prestes a entrar.
Como é a sua gente? Como é a sua cultura? Qual é a sua história?
Ergo as sobrancelhas e enruga-se-me a testa enquanto me esforço por encontrar na minha memória qualquer vestígio de informação sobre o Laos.
Nada.
Um vazio.
Não tenho absolutamente nenhuma ideia clara sobre o que vou encontrar.
Imagino um país pobre, imagino um solo seco e pouco fértil e antecipo os problemas de higiene que vamos encontrar. Depois, penso de novo, e relembro uns pedacinhos de informação que nos deram uns amigos que já visitaram este país. Reformulo a minha percepção, imagino agora um país iluminado por lanternas de papel e uma massa de pessoas pequenina de olhos rasgados que se juntam nas margens do rio para acender as velas e lançar as lanternas em direcção ao céu.
Dentro desta minha nova concepção, imagino agora encontrar um país que concentra em si todos os clichés asiáticos: monges budistas, arrozais verdes a perder de vista, magnólias, pessoas vestidas com os fatos tradicionais, lanternas de papel e comida exótica.
E heis-nos chegados à fronteira.
A maioria dos turistas backpackers como nós entra no Laos a partir da Tailândia, fazendo o percurso de dois dias em barco ao longo do Rio Mekong para chegar a Luang Prabang.
Nós, como vínhamos de Khon Kaen, na Tailândia, acabámos por entrar por Viantiene e fazer o percurso inverso, até Luang Prabang e esperávamos depois seguir de barco rio acima, para conhecer aldeias mais pequenas e menos visitadas nas montanhas no Norte do país.
Em Viantiene encontrámos um cidade deprimida, triste, com um ar semi abandonado, que em nada fazia crer ser a capital de um país. Ao contrário da Tailândia, nas ruas não encontrávamos as milhares de barraquinhas a que estávamos habituados e tivemos dificuldade em encontrar um sítio onde vendessem comida tradicional. No pequeno centro, lojas e restaurantes bem decorados faziam crer que se estivesse num qualquer país ocidental, num contraste demasiado nítido com o meio envolvente, pobre e descuidado.

Buddha Park
No segundo dia, seguimos o conselho de um grupo de jovens que encontrámos e apanhámos o autocarro nº14 que nos levava um pouco fora da cidade, até ao “Budha Park”, um parque de esculturas criado por um monge hindo-budista que queria espalhar a sua filosofia. Durante a viagem, os brownies e os capuccinos que se vendiam no centro deram lugar à carne seca ao sol e à banana assada. As estradas não asfaltadas súbito à saída da cidade recordaram-nos que estávamos num dos países mais pobres do mundo e o pó que se levantava à nossa passagem acrescentava-se às casas e às árvores tingidas daquele laranja terroso forte.
Encontrámos o parque quase vazio de turistas mas, em compensação, cheio de estátuas surrealistas parecidas saídas de um filme de Dali. Deuses de 4 cabeças, deusas de 8 braços, animais-humanos de todas as formas e feitios.
À entrada, o olhar prende-se numa gigantesca figura redonda com uma boca saliente que convida a que sejamos “engolidos”. Abaixamo-nos e enfiamos a cabeça e o corpo entre os dentes para descobrir uma passagem secreta entre a parede interna e a parede externa. Já no interior, pequenas janelas iluminam uma câmara interna que se extende por três níveis, completamente repleta de estátuas e estatuetas minuciosamente cobertas por teias de aranha, num estilo de “casa do terror”. Continuamos até ao cimo subindo os estreitíssimos e altos degraus que separam cada um dos níveis e literalmente enfiamo-nos por um orifício quadrado que nos leva ao topo daquela casa-escultura. Equilibrados no alto desta abóboda-testa conseguimos avistar todo o parque e um budha gigante deitado de novo atrai o olhar e indicando-nos qual a direcção a seguir.