De carro pelo Kruger National Park

Se é verdade que quando se fala de África se fala sobretudo de coisas negativas, verdade é que África tem tantas ou mais coisas positivas das quais falar. E a natureza é uma delas. Se és fascinado pela vida selvagem e o Jardim Zoológico não é propriamente aquilo que tinhas em mente, faz como nós, aluga um carro e passeia por um dos inúmeros parques ou reservas naturais que existem na maioria dos países da África sub-sahariana, o preço é aceitável e a experiência inesquecível!

Depois de nos aventurarmos por alguns parques da África do Sul e Swazilândia onde nos deixámos fascinar ao estar a poucos metros de rinocerontes, hipopótamos e crocodilos africanos, chegou a altura de entrar no Kruger National Park, na fronteira com Moçambique.

Como o Kruger é um dos parques mais importantes desta zona, é também um dos mais visitados e por isso marcámos alojamento com alguma antecedência. Apesar de já ter sido difícil encontrar bungalows livres, conseguimos lugar no Satara Rest Camp que fica mais ou menos no centro do parque o que nos permitia fácil acesso às zonas de maior concentração de animais.
Com a liberdade de termos o nosso prórprio carro dormimos num turismo rural excelente muito perto da entrada sul do Kruger para poder entrar de manhã cedo e aproveitar o dia inteiro de safari. Mas acordei com sintomas febris e uma mancha negra na perna e, ao passar por uma farmácia, foi-me dito que tinha sido mordida e devia consultar imendiatamente um médico pois ía ficar muito doente se não recebesse tratamento. Fixe. Felizmente estávamos na Àfrica do Sul que é um dos países com melhor assistência médica (privada) das redondezas e em poucos minutos já tinha sido assistida por um médico e já estava a tomar antibiótico para combater a febre da carraça africana, que entretanto me foi diagnosticada. Com os sintomas aliviados e o carro atestado, passámos os portões do parque e entrámos no mundo da selva africana. Ainda não tínhamos avançado os primeiros metros e já um elefante macho adulto se passeava a poucos metros de nós, exibindo os dois cornos de tamanho considerável com ar vaidoso e desafiante.
Nem cinco minutos depois e, janelas do carro abertas, o Luca abranda o carro e, apontando para mim começa a gaguejar algo indecifrável. Era um leopardo, sentado na beira da estrada, ao lado da minha janela (perto da minha cabeça, portanto). Nem queríamos acreditar pois os leopardos são animais solitários e esquivos e extremamente difíceis de ver numa paisagem em que facilmente se confundem com as cores da erva seca. Seguimos por um caminho secundário mas encontrámos logo o caminho bloqueado por um grupo enorme de elefantes que se recusava a sair da estrada onde estavam “estacionados” à sombra de uma árvore. Reparámos que os elementos adultos do grupo de posicionaram em círculo, rabos encostados uns contra os outros e como me intrigou o facto de estarem ali estáticos sem estarem a comer ou a andar aproveitei para tirar um série de fotografias. À noite quando vimos no computador percebemos que, sem saber, tínhamos testemunhado e fotografado o nascimento de um elefante bebé! Apesar de as fotos não estarem grande coisa pois estava muita luz e eles estavam na sombra, até se vê o cordão umbilical! Enfim, as emoções continuaram quando numa curva demos de caras com uma girafa (e depois outras tantas), uma família de rinocerontes e um outro leopardo, desta vez um adolescente que até parou para pousar para a fotografia. Com o sol a cair e como não se pode guiar no parque depois do anoitecer, corremos até ao nosso Rest Camp onde adormecemos sob um céu límpido e estrelado. De novo ao volante, ainda mal o sol tinha nascido já estávamos ao pé de um enorme grupo de zebras e búfalos que se agitavam pela presença de um grupo grande de leões que aguardava a oportunidade certa de caça. A erva alta amarela dificultava-nos a visão e por isso não esperámos para ver a caçada e seguimos viagem. Durante este dia percebemos que os elefantes e as girafas eram mais fáceis de ver do que os cães e os gatos nas cidades e o privilégio de os ter ali ao lado, só para nós, no silêncio da selva, é qualquer coisa de inegualável. Das várias espécies de antílopes e macacos que fomos vendos nem falo porque por esta altura já se tinham tornado habituais aos nossos olhos. Mas num pântano coberto de nenúfares fomos ainda surpreendidos por uma luta entre dois hipopótamos machos que grunhiam e abriam muito a boca para tentar assustar o adversário (os hipopótamos vivem numa espécie de harem e o macho cabeça de família não tolera a presença de outros machos, mesmo que sejam seus filhos, expulsando-os ou comendo-os quando são crias).
No terceiro dia vimos todos estes animais de novo e ainda uma cheeta (que sorte!) e não podíamos sentirmo-nos mais realizados. Até me esqueci da febre da carraça! Fomos embora com uma vontade imensa de voltar e não vemos a hora de chegar ao Serengeti, na Tanzânia, onde dizem que a concentração de animais é ainda mais impressionante.

zebra

luta de hipopótamos

Búfalo africano (Wildbeast)

África do Sul – um país de contrastes

Vista de Cape Town a partir da Waterfront

Raramente nesta viagem um país correspondeu exactamente, ou pelo menos aproximadamente, àquilo que esperávamos. Quase sempre, como nesta vez, a realidade é bem mais rica do que aquilo que as imagens que nos tinham chegado mostravam.
Quando aterrámos em Cape Town fomos recebidos por um ar seco e frio completamente contrastante com a humidade quente que tínhamos deixado em Jacarta, o nosso último destino na Àsia antes de viajarmos para o outro lado do Oceano. Se África costuma ser sinónimo de calor e pobreza, Cape Town surpreendeu-nos como a cidade mais perfeitinha que encontrámos até agora. Casas bonitas com varandas, pintadas de fresco e com iates à porta, ruas largas com passeios, pouco trânsito, boutiques e lojas gourmet em cada esquina, os passeios transbordando de riqueza multicultural (pretos, brancos, amarelos e às bolinhas). Como se não bastasse, o cenário recorta-se no sopé das montanhas e enconstado a um mar bravio azul forte.

mercado de Cape Town

Qualquer semelhança entre isto e a imagem que tinhamos de Africa é pura coincidência.
Como os preços também são bem mais altos do que prevíamos, passámos a primeira semana a comprar comida no supermercado e hoje temos queijo brie com pera e um copo de vinho tinto de aperitivo para o jantar (iguarias que durante tantos meses nos foram privadas).
Mas as vivendas que ostentam iates estacionados no canal de água em frente à porta (casas dos brancos) vivem lado a lado com os bairros de lata (casas dos pretos) e a tensão que se sente nas ruas é de cortar à faca. Será o país capaz de continuar a ajustar-se à nova realidade económico-social de forma pacífica e evitar a explosão que tantos auguram? Isto promete. Tchin -tchin!